quarta-feira, 28 de maio de 2014

LOBIVAR MATOS, PARA QUE TODOS SAIBAM # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ


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LOBIVAR MATOS
(1915-1947)

Poeta quase desconhecido mas em fase de redescobrimento e estudo em seu estado de origem – o Mato Grosso do Sul, foi um fenômeno. Escreveu seus livros Areôtare e Sarobá, antes dos 20 anos de idade, na vanguarda de nosso Modernismo. É possível ver nele as influências de Manuel Bandeira e de Raul Bopp mas sua lavra é muito original. Usa o coloquialismo brasileiro com naturalidade. Seu versilibrismo é original, com acentuada cor telúrica, regional, às vezes de forma ingênua, mas militante pela denúncia das mazelas e das precariedades da vida das populações ribeirinhas na zona fronteiriça de Corumbá.  
Observação importante: mantivemos a ortografia original de suas obras.

Antonio Miranda


NATUREZA MORTA

Os trilhos velhos estão sendo trocados
por trilhos novos.

E os bondes enfileirados
andam devagar.
Os passageiros estão inquietos.
Alguns não se conformam
e descem apressados, praguejando.
Outros procuram distração
nas entrelinhas dos jornais.

Meus olhos grudaram nos gestos fortes
dos homens feios,
e eu, intimamente, justifico,
achei natural o atraso dos bondes
e a troca dos trilhos velhos...


ESMOLA

É verdade – me disse o moço sujo da esquina –
quando menino, toda vez que tropeçava e caía
sempre encontrava alguém para me levantar.

- Levanta, batuta, para cair outra vez!

Agora, que sou farrapo de homem,
que queria ser homem,
que já tropecei por este mundo a fóra,
que já cansei de ficar no chão,
não encontro ninguem que me tire da sargeta.
Pelo contrario, parece, ninguem me quer ver de pé.
Passam e jogam níqueis no meu chapéu furado.

Esses idiotas pensam que me fazem bem,
que pagam uma prestação do céu,
e que a esmola que me atiram,
humilhados e humilhantes,
me serve para alguma coisa.

- Idiotas! Imbecis! Criminosos!  


INTROSPEÇÃO  

Na sala enorme e colorida
do meu cerebro,
lembranças vagas
de mulheres vivas
dansam numa ginga mole.
bamas,
sambas
e cateretês.


DELIRIO
Aquelas chaminés continuarão a vomitar destinos?
Aquelas máquinas continuarão a ceifar corpos robustos?
Aqueles mil braços erguidos
continuarão a produzir e a definhar?   

DEVOÇÃO

Quando sinto vontade de ver santos
nunca entre em igreja.
Sento-me num banco de praça,
na boquinha da noite,
e fico namorando os desgraçados
encolhidos na escadaria da igreja.


BANZÉ DE CUIA 

Negro tá com morrinha,
tá com o diabo no couro
e não provoca, não, cabra safado,
porque do contrario vai haver banzé de cuia,
forrobodó.

Em casa a negra velha tá fula de raiva,
já andou dando sopapos no marido,
espremendo os moleques
e xingando a vizinha,
que não lhe quer emprestar
um pires de farinha.

Não mexe com o negro, não, negrada.
Ele está acuado e não quer prosa, não.

Negro entra no boliche,
pede fiado um “mata-bicho”
e senta na calçada, cuspindo:

- Porcaria de vida...   
*
SAROBÁ

Bairro de negros,
negros descalços, camisa riscada,
beiçolas caídas,
cabelo carapinhé,
negras carnudas rebolando as curvas,
bebendo cachaça;
negrinhos sugando as mamas murchas das negras,
negrinhos correndo doidos dentro do mato,
chorando de fome.

Bairro de negros,
casinhas de lata
água na bica ingando, escorrendo, fazendo lama,
roupa estendida na grama;
esteira suja no chão, duro, socado;
lampeão de querosene piscando no escuro;
negra abandonada na esteira tossindo,
e batuque chiando no terreiro;
negra tuberculosa escarrando sangue,
afogando a tosse seca no eco de uma voz mole
que se arrasta a custo
pelo ar parado.

Bairro de negros,
mulatas sapateando, parindo sombras magras,
negros gozando, 
negros beijando,
negros apalpando carnes rijas;
negros pulando e estalando os dedos
em requebros descontrolados;
vozes roucas gritando sambas malucos
e sons esquisitos agarrando
e se enroscando nos nervos dos negros.

Bairros de negros,
chinfrim, bagunça,
Sarobá.
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FONTES:
1 - http://www.antoniomiranda.com.br/Brasilsempre/lobivar_matos.html   ;
2 - http://www.lobivarmatos.com/#!portflio/csan   ;
3 - http://www.lobivarmatos.com/   ;
4 - http://psicoterapiaepoesia.blogspot.com.br/2009/06/meu-avo-lobivar-matos.html
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terça-feira, 27 de maio de 2014

CABEÇA FEITA # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

-Foto Pensador da Aldeia-
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CABEÇA FEITA

Nos meus tempos de hypie,
falar em fazer a cabeça
causava o maior grilo,

porque ninguém saberia
se si tratava de droga,
política ou candomblé,

pois apenas viciados,
militantes e espíritas
eram ditos " cabeça feita"!
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sábado, 17 de maio de 2014

ELEGIA CORYDRANE - Poema Piada # Antonio Cabral Filho - Rj

ELEGIA CORYDRANE

Sartre foi guru
das rebeliões juvenis
sem prever o dèjá vu.

Muito "Idade da razão"
camuflou "merirruana"
junto com trezoitão
dentro da tiracolo,

enquanto o free love
dissolvia as barricadas.

Mas quando 
pintou o desbunde,
nem Sartre
colheu razão da idade.
***

domingo, 11 de maio de 2014

GERAÇÃO 22 # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

Oswald de Andrade - internet
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GERAÇÃO 22

O movimento modernista
tinha mesmo que dar certo,

pois entronou a paranóia
como essência do poder

e estabeleceu que o certo
para o povo brasileiro

é ser macunaímico,
sem vergonha nenhuma

de ser sem vergonha,
graças à sisudez de Mário

e à pandeguice de Oswald,
sem chamar ninguém de 22.
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quinta-feira, 8 de maio de 2014

sexta-feira, 2 de maio de 2014

ROSÁRIO FUSCO, MEUS MENINOS! Antonio Cabral Filho - Rj

 

1 - Rosário Fusco: quem é...http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_lit/index.cfm?fuseaction=biografias_texto&cd_verbete=8769


2 - Opinião:

Rosário Fusco, “o gigante voraz”

Escritor mineiro admirado por Mário e Oswaldo de Andrade hoje é quase desconhecido.

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Rosário Fusco
Ronaldo Werneck | Hoje em Dia
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rosário fusco o que foi físsil rosário fósforo
foi-se de fato lume fora do fusco do rastro do risco
que já foi sim e não porque nunca foi nunca foi-se de fato
rito rosto rateio ritmo rumo ruminação relíquia
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“Morreu de talento. É a urna de cinzas detergentes do modernismo” — ele declarava sobre Oswald de Andrade, na entrevista que eu e Joaquim Branco fizemos para o Pasquim, em 1976. Parecia falar de si mesmo, de seu talento, que lembrava o de Oswald. Há 35 anos, no dia 17 de agosto de 1977, morria em Cataguases o escritor Rosário Fusco. Nascido em 19 de julho de 1910 em São Geraldo (MG), Fusco veio com um mês para a cidade onde se tornaria, ainda adolescente, um dos fundadores e enfant terrible da revista Verde. Lançada em 1927, a Verde foi um dos principais braços do movimento modernista em Minas Gerais. Após longo périplo “oropa-frança-bahia” (Rio /Paris/Nova Friburgo), Rosário Fusco voltou em 1968 para Cataguases, onde ficou até o final da vida. Em 2010, o seu centenário de nascimento passou praticamente esquecido. “Lá se foi o velho Rosário Fusco” – escrevia o cronista José Carlos Oliveira no Jornal do Brasil de 21 de agosto de 1977, quatro dias após a morte do romancista: “um gigante voraz, andarilho infatigável que viveu (vivenciou, se preferirem) a aventura antropofágica proposta pelos modernistas. Cosmopolita, para onde quer que fosse levava um coração provinciano. Teria que terminar em Cataguases, misteriosa cidade com vocação de radioamador – dentro das casas, nos bares, na praça, na modorra da roça é apenas uma prevenção de forasteiro: na verdade, Cataguases está em febril contato com o mundo, é pioneira em cinema, em literatura, em arquitetura”.
Cataguases deve muito a Rosário Fusco, verdadeiro motor da revista Verde, um vulcão que escrevia, ilustrava, diagramava, mandava (e recebia) cartas pra todo mundo – principalmente para o modernista Mário de Andrade. Com um mês de idade e órfão de pai, Rosário Fusco de Souza Guerra chega a Cataguases com a mãe, lavadeira. Duro início de vida: aprendiz de latoeiro, servente de pedreiro, pintor de tabuletas, prático de farmácia, professor de desenho, bedel no Ginásio.
Aos 15 anos, já colaborava no Mercúrio, jornal dirigido por Guilhermino César, e logo em dois outros jornaizinhos, Boina e Jazz Band. Com José Spindola Santos, edita Itinerário — e juntos fundam a livraria-editora Spindola & Fusco. Aos 17, é um dos criadores da Verde e, aos 18, publica “Poemas Cronológicos”, com Enrique de Resende e Ascânio Lopes (1928). Em 1932, muda-se para o Rio de Janeiro, onde forma-se em Direito em 1937.

Fusco só escrevia à mão com uma velha e rombuda Parker 51

Romancista, funcionário federal, dramaturgo, poeta, jornalista, publicitário, radialista, crítico literário, ensaísta, secretário da Universidade do Distrito Federal e procurador do Estado do Rio de Janeiro. Muitos cargos para um homem só, mesmo um muito enorme e da melhor qualidade como Rosário Fusco. Melhor dizer, simplesmente, profissão: escritor. Mesmo porque ele foi o primeiro escritorbrasileiro a ser reconhecido como tal pelo antigo INPS. Em meados dos anos 1960, ele volta para Cataguases. “Onde anda Rosário Fusco?” – (se) perguntava, em 1996, um poeta da terra. Por acaso, eu mesmo. “Onde andam o vozeirão, a velha e rombuda Parker 51, anotando trechos ou gravando situações que irão compor um próximo romance?” Fusco só escrevia à mão: “assim me sinto mais ligado ao que estou escrevendo. Além de péssimo datilógrafo, a máquina me distancia das coisas, da densidade dos corpos”. Onde andam o imponderável bigode mexicano, a larga risada, o humor, a lágrima, o uísque, o cigarro, a panela com água fazendo de cinzeiro (magnífica invenção!), a lustradíssima bota do menino Rosário – aquela que ficava sobre a mesa do seu escritório na casa do bairro da Granjaria? Onde andam aquela panela, aquela bota? Como a bota de Van Gogh, uma de suas admirações “do rol dos confessáveis (as outras; Machado de Assis, Dostoievski, Beethoven). Mas que coisa é Rosário Fusco, que coisa entre coisas, entre todas as coisas é R.F.”?

a.s.a. – associação dos solitários anônimosObras

De 1928 a 1969 – quando a Editora Mondadori lançou na Itália seu romance L’Agressore, editado em 1943, no Rio, pela José Olympio, Fusco publica inúmeros títulos em vários gêneros: Fruta de Conde, poesia, em 1929; Amiel, ensaio, 1940; O Livro de João, 1944; Carta à Noiva, 1954; O Dia do Juízo, 1961, romances; Vida Literária, crítica, 1940, Introdução à Experiência Estética, ensaio, 1949; Anel de Saturno e O Viúvo, de 1949, teatro; e Auto da Noiva, farsa, 1961. A Ateliê Editorial publicou seu romance póstumo a.s.a.: associação dos solitários anônimos.
Em 1976, sai nova edição de O Agressor, pela a Editora Francisco Alves. O mesmo romance é também republicado cm 2000, pela Bluhum. Em 2003, a Ateliê Editorial lança um romance inédito do escritor, a.s.a. – associação dos solitários anônimos. Existem ainda outros inéditos, comoVachachuvamor, romance; Um Jaburu na Tour Eiffel, livro de viagem; eCreme dc Pérolas, poemas eróticos.

Vida e Morte

Que coisa é Rosário Fusco? Um escritor e basicamente um romancista, com toda a sua danação e glória: “Tenho perdido ônibus, bondes, empregos, amizades. Nunca perdi a vontade de escrever… Não sei, em verdade, porque escrevo, se todos escrevem, se há tantas coisas na vida menos melancólicas e mais eficientes.., Vivo – quem não vive? — sob o signo do imprevisto, que manda chuva e manda guerra, protestos de títulos e cobradores à porta, falta de manteiga e falta de afeição, aumento do preço do cinema ou dores de cabeça, irremovíveis. Vivo num mundo onde poucos penetram e, se penetram, faço tudo para não deixá-los sair… Escrever é um mal, é um bem, é um erro? É tudo isso e não é nada disso: é uma fatalidade, para encurtar palavras”.
Em sua crônica quando da morte do escritor, Carlinhos Oliveira brinda à vida e faz de suas palavras a melhor das elegias para Rosário Fusco: “Curiosamente, não recebo com tristeza a notícia de sua morte. Ele viveu intensamente, não desprezou nada, comeu e bebeu e estudou a vida com furor implacável. Não provou do veneno dos românticos, mergulhou de cabeça na festa, e cada minuto de sua vida foi sem duvida uma vitória contra a insidiosa inimiga”. Sim, Rosário Fusco viveu e morreu de talento…
Fontes:1 - INÉDITOS Revista Literárias nº 2 - julho-agosto, 1976;
2 - http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_lit/index.cfm?fuseaction=biografias_texto&cd_verbete=8769  ; 
3 - http://blog.atelie.com.br/2012/10/rosario-fusco-o-gigante-voraz/#.U2Pu6fldW5M   
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