sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

DESEJO & PRAZER * Antonio Cabral Filho - Rj

*
DESEJO & PRAZER

Lady Godiva despia-se
pelo puro prazer
de montar seus eqüinos
pelo a pelo;

Salomé não era
lá nenhuma amazona
e também despia-se,
mas para ser montada
por seus cavalos
pele a pele;

Rosinha, filha do vizinho,
não é nenhuma topmodel,
mas fez assim também
e desabrochou-se todinha
embaixo do pé de manga
para o Jorginho Florista.
*

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

DESOMENAGEM * Antonio Cabral Filho - Rj

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DESOMENAGEM

Chove nos campos gerais,
menos nicotina no ar,
menos cepticismo no salão,
menos alcoolismo na tribo,
menos desprezo ao que digo.

Foi-se Rosário Fusco,
nosso spleen sem Paris.
*

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

AUTO RETRATO - Poema Piada * Antonio Cabral Filho - RJ

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AUTO RETRATO

Não quero saber
de poeta fingidor,
muito menos
de poeta gauche
nem de poeta amigo do rei.

Prefiro viver
como Baudelaire:
cercado de mim mesmo,
por minha conta e risco.
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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

TROVA ESCABROSA, Por Glóra Perez * ANTONIO CABRAL FILHO - rj

GLÓRIA PEREZ,
escritora de novelas, poeta e trovadora.
*
Aprendi com a mamãe,
que nunca teve uma queixa:
A mulher perdida goza,
a mulher direita deixa.

(in Antologia da Trova Escabrosa, Eno Teodoro Wanke, 1989  
http://www.geocities.ws/acadela/brasileiros.html )
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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

FÉ CEGA - Poema Piada # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

-patrialatina.com.br-
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FÉ CEGA

Calma, Eduardo Galeano.
As Veias Abertas
da América Latina
são uma sangria desatada,
cuja enfermeira
que virá estancá-la
sobreviveu à última guerra
em algum lugar do planeta,
na qual o Tio Sam foi derrotado
e vem arrastando-se por aí,
por amor de ofício,
trazendo guardados no peito
os sonhos de Chê Guevara.
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domingo, 28 de setembro de 2014

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-osmusicaisdomundo.blogspot.com-
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FAROESTE EM MOSCOU

Bala lá e cá
qualquer um troca 
em qualquer lugar,

mas com o Bolshoi
é diferente:
balalaika
só em Moscou.
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quinta-feira, 25 de setembro de 2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

terça-feira, 16 de setembro de 2014

BANDEIRA - POEMA PIADA * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

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BANDEIRA

Nunca participei
de escaramuças literárias,
não por medo de escaramuças,
até porque nunca perdi bala,
mas por não ser tropa
nem ser chegado a generais.
***
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domingo, 31 de agosto de 2014

ACADELA E A TROVA ESCABROSA * Antonio Cabral Filho - Rj

ANTONIO CABRAL FILHO - RJ
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ACADELA
Academia Escabrosa de Letras e Artes
http://www.clerioborges.com.br/acadela.html

A ACADELA
tem um lugar especial no coração dos TROVADORES e uma página no site do POETA TROVADOR CLÉRIO BORGES, do Espírito Santo. Quem acessá-la, não será mais o "mesmo" depois disso, será expulso do paraíso e terá que se contentar em suprir-se apenas com o suor do seu rosto.
O JUCA CHAVES, escritor e humorista de cepa nobre, deixa um convite:
EU TENHO DUAS CABEÇAS,
TODAS DUAS SEM CENSURA;
A DE CIMA É DEMOCRÁTICA,
A DE BAIXO É A DITA DURA.
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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

MORÔ NA FILOSOMIA # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

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MORÔ NA FILOSOMIA

Sem razão de ser
sem moral pra ver
o tempo passar ao largo

sem moral pra deixar correr
o sem pé nem cabeça
até que algo aconteça

torço

pois reza que se presa
não vira presa
pega no laço
de mandinga rasa

moral
que é fugaz não marca
vasa
*

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

CACHORRADA - POEMA PIADA # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

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CACHORRADA

Conheço um cachorro
igualzinho ao Fernando Sabino:
Ele adora a "Mulher do Vizinho".

Mas o cachorro do vizinho da direita
vive cruzando com a cadela
da vizinha da esquerda...

enquanto isso,
o cachorro do vizinho do meio
tenta um mènage à troir.
***

segunda-feira, 21 de julho de 2014

MORTALHAS, SONETO A V. DE C., EMÍLIO DE MENEZES - RJ

EMÍLIO DE MENEZES

V DE C

FRACO E DOENTE, SE SOLTA ALGUM GEMIDO,
OU SAE UM VERSO OU BROTA UMA SENTENÇA.
SE COMO JUIZ SEMPRE É ACATADO E OUVIDO,
COMO POETA NÃO SEI DE ALGUÉM QUE O VENÇA.

SE NAS ORDENAÇÕES PRESTA SENTIDO,
TEM, NAS REGRAS DE HORÁCIO, PARTE IMMENSA.
NÃO SE LHE SABE O CULTO PREFERIDO:
SE NA ARTE OU NO DIREITO, TEM MAIS CRENÇA.

TENDO DEFEITO, NUNCA TEVE ALCUNHA.
QUANDO APPARECE, NUM REENCONTRO À LIÇA,
O QUE NOS ANTAGONISTAS ACABRUNHA,

É VER QUE, SEM FRAQUEZA NEM PREGUIÇA,
NUMA SÓ MÃO, COM O MESMO GESTO EMPUNHA,
A ÁUREA LIRA E A BALANÇA DA JUSTIÇA.

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quinta-feira, 10 de julho de 2014

LUIZ LEITÃO: POESIA BURLESCA # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

LUIZ LEITÃO - NITERÓI - RJ
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ANTOLOGIA DE POETAS FLUMINENSES,
uma das mais antigas referencias à poesia fluminense;
*
VIDA APERTADA,
a única obra de Luiz Leitão de que tenho notícias.
*
Mas a minha melhor referência sobre ele, vem de um livro de sonetos burlescos, de autoria de Alfredo Silva, intitulado SONETOS BURLESCOS, aonde o autor agradece a Luiz Leitão pelo longo aprendizado em estilística burlesca com os seus sonetos e cita como sendo " o mais belo soneto burlesco do nosso idioma" ,  este a seguir:
O CARALHO

CARALHO, PAI DE TODOS OS MORTAIS,
CONSOLADOR DE POMBAS E BOCETAS,
ALMA DOS CUS E CORAÇÃO DAS GRETAS
E ARRIMO DE TODOS OS CASAIS.

PROCURA TRATAR BEM ESSE RAPAZ,
COM ESSE MOÇO, AMIGO, NÃO TE METAS,
PORQUE NA HORA DAS CAGADAS PRETAS
NÃO HÁ TABACA QUE ELE DEIXE EM PAZ.

NOS DOMINGOS E DIAS FERIADOS,
DIAS DE FODAS DE CULHÕES PUXADOS,
FOI COM QUEM TUA MÃE SEMPRE SE VIU.

COM ESSE CARA, POIS, EU NÃO ME METO,
ELE É MEU PAI, TEU PAI, PAI DO SONETO
E PAI TAMBÉM DA PUTA-QUE-O-PARIU.
*
Seguem duas fontes..
1 - http://versoeconversa.blogspot.com.br/2014/06/luis-leitao-ponto.html
*
2 - http://youpode.com.br/blog/todapalavra/2009/09/16/vida-apertada-tem-lancamento-sabado-na-bienal/#more-278

e o artigo do Escritor passofundense Paulo Monteiro...

Lili Leitão: "o maior satírico fluminense"


Artigo de Paulo Monteiro

Lili Leitão é o nome literário pelo qual ficou conhecido o poeta niteroiense Luiz Gondim Leitão, nascido em 25 de janeiro de 1890 e falecido no dia 14de junho de 1936. Foi jornalista e funcionário municipal em sua cidade, onde chegou a editar um curioso jornal carnavalesco intitulado "O Almofadinha".

Participou da roda literária do Café paris, ao lado de outros poetas como Nestor Tangerini, Anísio Monteiro, Luis Pistarini, Mazini Rubano, Armando Gonçalves, Olavo Bastos, Benjamin Costa e René Descartes de Medeiros, hoje praticamente esquecidos, pois ficaram fora do cânone literário do próprio Estado do Rio de Janeiro.

Segundo o pesquisador Luis Antônio Pimentel Lili Leitão realizou estudos preparatórios para cursar uma das faculdades do Rio de Janeiro, o que não conseguiu fazer. Começou a divulgar seus trabalhos em diversos periódicos. Em 1911 começou a trabalhar na Prefeitura Municipal de Niterói, onde se aposentou por invalidez, em 4 de abril de 1936 Faleceria tuberculoso pouco mais de dois meses depois de aposentado.

Como todos os poetas satíricos e humorísticos foi um perdulário. Escreveu e improvisou muitos poemas, mas poucos chegara até nossos dias. Em vida publico apenas três livros. O primeiro deles intitulado "Sonetos", pela livraria Jacintho Silva, no ano de 1913, em parceria com o poeta Sylvio Figueiredo. Em 1926 publicou uma plaqueta, sob o título de "Vida apertada", com 32 sonetos humorísticos, pela Casa Capanema. Este livro saiu, recentemente em segunda edição pela Nitpress. Editou, ainda o livro "Comida Brava", com "sonetos pornográficos", em edição limitadíssima, segundo testemunhos sérios. 

Como todos os poetas satíricos e humorísticos a obra de Lili Leitão é uma obra de circunstância. Ao contrário dos demais gêneros poéticos, que procuram transformar o particular em universal, a poesia satírica e a poesia humorística transformam o universal em particular, ao concentrarem o ridículo e o grotesco de todas as coisas e pessoas em uma única coisa o pessoa. Essa inversão lógica da Arte Poética é que torna os poetas satíricos e humorísticos, via de regra, condenados à efemeridade e contribui, também, para que os poetas da Belle Époque, em geral, e do grupo niteroiense do Café Paris, em particular, obtivessem difícil recepção no cânone literário do seu tempo.

No caso dos poetas do Café Paris outros fatores podem ter contribuído para que não fossem inseridos entre os mais reconhecidos poetas do seu Estado. A começar por um boicote praticado contra eles pela chamada "grande crítica" brasileira, que se concentrava na então Capital da República. E no centro desse isolamento estariam, com certeza, a disputa por empregos públicos e a carteira de anúncios, visto que todos, nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói, eram jornalistas.

Transcrevo do exemplar de "Vida Apertada [Sonetos]", com que gentilmente me presenteou o amigo Nelson Tangerini, alguns sonetos de Lili Leitão. 

Eu

Luiz Leitão

Nasci em Niterói, lugar ordeiro,
Terra de Araribóia, santa e benta,
No dia vinte e cinco de janeiro
Do ano mil oitocentos e noventa.

Não sou moço, pois vou para o quarenta;
Também não sou nenhum velho cangueiro.
Vivo da pena, minha ferramenta:
Sou poeta, burocrata e "revisteiro".

Rabichos, tive um só, pela Chiquinha;
Dinheiro, tenho visto uma porção,
Na algibeira dos outros, não na minha.

E, assim, lutando, sem tombar de borco,
Hei de ser sempre o mesmo Luiz Leitão,
Leitão que nunca há de chegar a porco...

TREZE

Luiz Leitão

O treze é um caso sério, meus senhores!
É o grande "peso" da população:
O maior malfeitor dos malfeitores,
A "urucubaca" da numeração.

Para mais aumentar os seus horrores,
Pragueja esta infernal superstição:
Da mesa, a que houver treze comedores,
O mais "pesado" vai para o caixão...

Morre... De fato, foi o que se deu
Numa ceia supimpa, colossal,
Em que champanha "à beça" se bebeu.

Éramos treze ao todo, a conta feita;
Doze, porém, rasparam-se, e, afinal,
O "pesado" fui eu - "morri" na ceia... 

O exemplar, que Nelson Tangerini me enviou, veio acompanhado de uma segunda parte ou volume sob o título de "SONETOS SATÍRICOS", onde constam outras sátiras de Lili Letão, com esta:

NÃO

Luiz Leitão

Desde que ao mundo fui arremessado
Meu destino é igual de Sul a Norte;
Um "Não", somente um "Não" tenho encontrado,
"Não" no amor, "Não" na gaita, "Não" na sorte.

E assim venho vivendo amargurado,
Maldizendo a vida e bendizendo a morte;
Nascer foi das asneiras a mais forte
Que involuntariamente hei praticado.

Entretanto, esse "Não" que não me deixa,
Essa constante e eterna negativa,
A direta razão da minha queixa,

Esse "Não" que da mente não me sai,
É consequência de uma afirmativa,
De um "Sim" que minha mãe deu a meu pai.

É bom lembrar que, ao fim e o cabo, Lili Leitão e seus demais companheiros do Café Paris se inseriam perfeitamente na escola dominante da época: o Parnasianismo. E, para ser mais preciso, no chamado Neoparnasianismo. E mais: não eram melhores nem piores, se é que se pode empregar algum tipo de juízo de valor para a obra de arte do que os seus contemporâneos, que sobreviveram para os compêndios e manuais de história literária.
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quinta-feira, 26 de junho de 2014

quarta-feira, 18 de junho de 2014

sábado, 7 de junho de 2014

PEDRO KILKERRY, POETA SINGULAR # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

PEDRO MILITÃO KUILKUERRY,
NASCIDO EM SALVADOR - BA, A 10 DE MARÇO DE 1885,
FALECE DE TRAQUEOTOMIA EM 25 DE MARÇO DE 1917.
*
PEDRO KILKERRY,
como passou a assinar os seus trabalhos literários, é um poeta notável no seus caracteres estilísticos. A academia o qualifica como simbolista, mas independente de que o seja ou não, a sua poesia tem marca própria, e não um chorrilho de seguidismos. Sua produção vai do soneto com preciosidades estéticas, como o abaixo, passando pela crônica, contos, novelas até às sátiras, onde ele se solta e brinca de roda com os versos.
*
AD VENERIS LACRIMAS

Em meus nervos, a arder, a alma é volúpia... Sinto
que Amor embriaga a Íon e a pele de ouro. Estua,
deita-se Íon: enrodilha a cauda o meu instinto
aos seus rosados pés... Nyx se arrasta, na rua...

Canta a alâmpada brônzea? O ouvido aos sons extinto
acorda e ouço a voz ou da alâmpada ou sua.
O silêncio anda à escuta. Abre um luar de Corinto
aqui dentro a lamber Hélada nua, nua.

Íon treme estremece.  Adora o ritmo louro
da áurea chama, a estorcer os gestos com que crava
finas frechas de luz na cúpula aquecida...

Querem cantar de Íon os dois seios, em coro...
mas sua alma - por Zeus! - na água azul doutra Vida
lava os meus sonhos, treme em seus olhos, escrava.

SÁTIRAS

I

No livro negro da vida,
a mão do diabo escreveu:
- Não subirás a descida...
e tu subiste, sandeu!

II

Quando eu nascia
tocava fogo em minha freguesia.
Um barbeiro, meu vizinho,
cortava a veia ao pescoço
porque no bicho perdia.
Quando eu nascia...

III

Crias-te vivo e eras sombra...
de alguém que tivesse vivido
de um peido dado de forma
que me afetasse o sentido.
Poliformismo de gases,
amigos! Peidos! rapazes!
*

POLÍTICA DO BIG STICK - Poema Piada # Antonio Cabral Filho - Rj


*
Sem medo de malhar 
no ferro frio,
quem avisa amigo é;

e não me canso de lembrar
ao amigo John Steinbeck

que o Alexis de Touqueville
plantou " Democracia

na América" pra sufocar
"As Vinhas da Ira".
*

quarta-feira, 28 de maio de 2014

LOBIVAR MATOS, PARA QUE TODOS SAIBAM # ANTONIO CABRAL FILHO - RJ


*
LOBIVAR MATOS
(1915-1947)

Poeta quase desconhecido mas em fase de redescobrimento e estudo em seu estado de origem – o Mato Grosso do Sul, foi um fenômeno. Escreveu seus livros Areôtare e Sarobá, antes dos 20 anos de idade, na vanguarda de nosso Modernismo. É possível ver nele as influências de Manuel Bandeira e de Raul Bopp mas sua lavra é muito original. Usa o coloquialismo brasileiro com naturalidade. Seu versilibrismo é original, com acentuada cor telúrica, regional, às vezes de forma ingênua, mas militante pela denúncia das mazelas e das precariedades da vida das populações ribeirinhas na zona fronteiriça de Corumbá.  
Observação importante: mantivemos a ortografia original de suas obras.

Antonio Miranda


NATUREZA MORTA

Os trilhos velhos estão sendo trocados
por trilhos novos.

E os bondes enfileirados
andam devagar.
Os passageiros estão inquietos.
Alguns não se conformam
e descem apressados, praguejando.
Outros procuram distração
nas entrelinhas dos jornais.

Meus olhos grudaram nos gestos fortes
dos homens feios,
e eu, intimamente, justifico,
achei natural o atraso dos bondes
e a troca dos trilhos velhos...


ESMOLA

É verdade – me disse o moço sujo da esquina –
quando menino, toda vez que tropeçava e caía
sempre encontrava alguém para me levantar.

- Levanta, batuta, para cair outra vez!

Agora, que sou farrapo de homem,
que queria ser homem,
que já tropecei por este mundo a fóra,
que já cansei de ficar no chão,
não encontro ninguem que me tire da sargeta.
Pelo contrario, parece, ninguem me quer ver de pé.
Passam e jogam níqueis no meu chapéu furado.

Esses idiotas pensam que me fazem bem,
que pagam uma prestação do céu,
e que a esmola que me atiram,
humilhados e humilhantes,
me serve para alguma coisa.

- Idiotas! Imbecis! Criminosos!  


INTROSPEÇÃO  

Na sala enorme e colorida
do meu cerebro,
lembranças vagas
de mulheres vivas
dansam numa ginga mole.
bamas,
sambas
e cateretês.


DELIRIO
Aquelas chaminés continuarão a vomitar destinos?
Aquelas máquinas continuarão a ceifar corpos robustos?
Aqueles mil braços erguidos
continuarão a produzir e a definhar?   

DEVOÇÃO

Quando sinto vontade de ver santos
nunca entre em igreja.
Sento-me num banco de praça,
na boquinha da noite,
e fico namorando os desgraçados
encolhidos na escadaria da igreja.


BANZÉ DE CUIA 

Negro tá com morrinha,
tá com o diabo no couro
e não provoca, não, cabra safado,
porque do contrario vai haver banzé de cuia,
forrobodó.

Em casa a negra velha tá fula de raiva,
já andou dando sopapos no marido,
espremendo os moleques
e xingando a vizinha,
que não lhe quer emprestar
um pires de farinha.

Não mexe com o negro, não, negrada.
Ele está acuado e não quer prosa, não.

Negro entra no boliche,
pede fiado um “mata-bicho”
e senta na calçada, cuspindo:

- Porcaria de vida...   
*
SAROBÁ

Bairro de negros,
negros descalços, camisa riscada,
beiçolas caídas,
cabelo carapinhé,
negras carnudas rebolando as curvas,
bebendo cachaça;
negrinhos sugando as mamas murchas das negras,
negrinhos correndo doidos dentro do mato,
chorando de fome.

Bairro de negros,
casinhas de lata
água na bica ingando, escorrendo, fazendo lama,
roupa estendida na grama;
esteira suja no chão, duro, socado;
lampeão de querosene piscando no escuro;
negra abandonada na esteira tossindo,
e batuque chiando no terreiro;
negra tuberculosa escarrando sangue,
afogando a tosse seca no eco de uma voz mole
que se arrasta a custo
pelo ar parado.

Bairro de negros,
mulatas sapateando, parindo sombras magras,
negros gozando, 
negros beijando,
negros apalpando carnes rijas;
negros pulando e estalando os dedos
em requebros descontrolados;
vozes roucas gritando sambas malucos
e sons esquisitos agarrando
e se enroscando nos nervos dos negros.

Bairros de negros,
chinfrim, bagunça,
Sarobá.
*

FONTES:
1 - http://www.antoniomiranda.com.br/Brasilsempre/lobivar_matos.html   ;
2 - http://www.lobivarmatos.com/#!portflio/csan   ;
3 - http://www.lobivarmatos.com/   ;
4 - http://psicoterapiaepoesia.blogspot.com.br/2009/06/meu-avo-lobivar-matos.html
*